Pega um par de Havaianas e vira o solado para cima. Aqueles pontinhos em relevo, que parecem grãos de arroz espalhados, não estão ali por acaso nem por enfeite. Eles são a lembrança de uma sandália japonesa feita de palha de arroz trançada — e são a prova mais concreta de que a história da Havaianas começou muito longe da praia brasileira.

A marca nasceu em 1962, pela Alpargatas, e a partir daí virou uma daquelas coisas que todo brasileiro tem em casa sem lembrar direito quando comprou. Mas entre o primeiro par e os mais de 100 países onde a sandália é vendida hoje, existe uma sequência de acidentes, brigas contra imitação e uma virada de imagem que poucas marcas conseguiram fazer. Vamos por partes. 1962: o primeiro par O modelo original é o que hoje a marca chama de Tradi (ou Tradicional). Solado de borracha, tira em V, duas cores: branco e azul. Simples desse jeito.

A ideia era resolver um problema bem prático do país. Calor o ano inteiro, chão quente, gente que precisava de um calçado barato, lavável e que não estragasse com água. Borracha resolvia os três. Em 1964, segundo a própria marca, começou a fase das Kombis: vendedores rodando o Brasil de perua para colocar o chinelo em armarinho, mercearia e loja de esquina. Não foi propaganda de televisão que espalhou as Havaianas primeiro — foi estrada. A herança japonesa: o que é uma sandália zori A zori é uma sandália tradicional japonesa de sola plana e tira em V que passa entre o dedão e o segundo dedo. As versões mais tradicionais eram feitas de palha de arroz trançada, com tiras de tecido. A Havaianas pegou esse formato e traduziu para a borracha. A textura de grãos de arroz na palmilha é justamente a citação visual à palha trançada da zori — é um detalhe de design que sobreviveu por mais de seis décadas praticamente sem mudar.

O nome, por outro lado, não tem nada de japonês. "Havaianas" é uma referência ao Havaí, que na época era o destino de praia dos sonhos no imaginário popular. Ou seja: formato japonês, nome havaiano, produto brasileiro. "As legítimas": a briga contra as imitações Quando um produto simples faz sucesso, a cópia vem atrás. E veio. Nos anos 1970 o mercado estava cheio de chinelo de borracha parecido, mais barato e de qualidade duvidosa — tira que soltava no segundo mês, solado que achatava, cheiro que não saía.

A resposta da marca foi virar isso do avesso e transformar o defeito do concorrente em argumento próprio. Nasceu o posicionamento "as legítimas" e a frase que boa parte dos brasileiros ainda consegue repetir de cor: não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras. Chico Anysio e a frase que ninguém esqueceu O humorista Chico Anysio foi o rosto dessa fase na televisão, repetindo a promessa dos três "nãos" em campanhas que rodaram durante anos. Foi um caso raro de slogan que vira teste de compra: muita gente passou a virar o chinelo na mão na loja para conferir se era "legítima" mesmo. Vale um parêntese honesto aqui, porque essa parte da história circula em muitas versões pela internet. O que é bem Blog Arthínelos · Tópico 2 3 Julho 2026 documentado é o slogan, o posicionamento e a associação com Chico Anysio na década de 1970. Datas exatas de cada peça publicitária variam conforme a fonte.

De calçado popular a item de moda Nos anos 1980 as Havaianas eram tão presentes na vida do brasileiro que chegaram a ser tratadas como item essencial de consumo pelo governo, em meio ao controle de preços da época. Era o auge da popularidade — e também o começo de um problema de imagem. O chinelo era percebido como calçado básico, sem graça, associado a quem tinha pouco. A virada veio nos anos 1990, com duas jogadas: 1994 — Havaianas Top. Lançada em cores fortes e com solado de uma cor só, ela nasceu da observação de um hábito: gente que usava o chinelo tradicional virado do avesso para deixar a sola colorida aparecendo. A marca simplesmente transformou a gambiarra em produto. 1998 — Havaianas Brasil. Edição criada no clima da Copa do Mundo, com a bandeirinha na tira. Virou item de identidade nacional e nunca mais saiu de linha. A partir daí a lógica mudou. Cor, estampa, edição limitada, vitrine bonita. O chinelo deixou de ser o item que se comprava sem pensar e virou algo que as pessoas escolhiam.

O mundo aos pés O passo seguinte foi atravessar a fronteira. A marca estruturou sua área de comércio exterior no fim dos anos 1990 e, em 1999, as Havaianas apareceram em um desfile de Jean Paul Gaultier em Paris — o tipo de aparição que muda a percepção de um produto inteiro. Nas décadas seguintes vieram as colaborações e licenciamentos que a marca mantém até hoje, de moda a cultura pop. Segundo a própria Havaianas, a sandália é vendida em mais de 100 países. O que continua igual desde 1962 Apesar de tudo isso, o produto mudou surpreendentemente pouco. O solado da Top segue sendo 100% borracha, conforme informa a marca. O formato da tira em V é o mesmo. Os grãos de arroz continuam lá. O que mudou foi o entorno: mais modelos (Slim com tiras finas, Square com a ponta quadrada, linhas com estampa e brilho), mais cor e uma preocupação com resíduo que não existia nos anos 60. A marca informa que 100% do resíduo de produção das tiras dos modelos Top e Tradi volta para o processo de fabricação, e que os solados podem ser feitos com até 40% de resíduo de borracha da própria produção.  Link interno: página de coleção "Havaianas Top" Perguntas frequentes sobre a história da Havaianas Em que ano a Havaianas foi criada? Em 1962, pela Alpargatas, no Brasil. O primeiro modelo é o que hoje se chama Tradi (ou Tradicional), em branco e azul.

A Havaianas foi inspirada em qual sandália? Na zori japonesa, sandália de sola plana e tira em V tradicionalmente feita de palha de arroz. Daí vem a textura de grãos de arroz na palmilha. Por que se diz "Havaianas legítimas"? Foi o posicionamento adotado nos anos 1970 para diferenciar o produto das imitações, junto do slogan "não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras". Qual a diferença entre a Tradicional e a Top?

A Tradicional tem solado bicolor e tira mais estreita; a Top, lançada em 1994, tem solado de cor única e tira arredondada mais encorpada. Dá para ver a diferença lado a lado em  Link interno: comparativo de modelos Havaianas . Uma história que continua no seu pé O bonito dessa história é que ela não ficou em museu. O mesmo chinelo que rodava o interior em Kombi nos anos 60 é o que está agora na porta da sua casa, esperando você chegar do trabalho. Blog Arthínelos · Tópico 2 4 Julho 2026 Na Arthínelos você encontra as Havaianas originais — dos clássicos que atravessaram gerações às linhas mais recentes. Se ficou com vontade de ter um par com bandeirinha ou de experimentar um modelo que ainda não conhece, dá uma olhada em  Link interno: catálogo completo de Havaianas